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Armadilhas com feromônios

Uma vã promessa amorosa pode revolucionar a agricultura brasileira.

reportagem de Cátia Augustin especial para o site.


A síntese em laboratório dos feromônios, substâncias químicas usadas na comunicação entre animais da mesma espécie - desde seres humanos a formigas - tem o incrível poder de preservar o meio ambiente, tornar o país independente de pesticidas produzidos por empresas transnacionais, aumentar a competitividade dos produtos agrícolas brasileiros lá fora e baixar o preço dos alimentos (e até do álcool combustível) para o consumidor brasileiro.


Quando os feromônios começaram a ganhar manchetes nos jornais, na década de 70, todo o destaque era dado a seus efeitos sobre os humanos, principalmente as mulheres, inexplicavelmente atraídas por camisas masculinas empapadas de suor. Mas foi quando os cientistas se voltaram para o silencioso mundo dos insetos que o alcance econômico destas substâncias apareceu.


Os feromônios são os responsáveis pelos encontros amorosos dos insetos, pelo sucesso em descobrir alimentos (as formigas andam em fila até chegarem à fonte de comida graças a ele), e pelo alarme denunciando a proximidade de um inimigo (quem nunca bateu acidentalmente num besouro verde, ou maria-fedida?). Se a comunicação usada para estas três questões fundamentais: reprodução, alimentação e defesa, pode ser bagunçada por intervenção humana, o que se tem é a mais limpa arma química de que se tem notícia.


Na natureza, os feromônios são produzidos, na maioria das vezes, somente por um dos parceiros. Dependendo da espécie, só o macho ou só a fêmea os produz.


Sintetizando estas substâncias em laboratório e as distribuindo em armadilhas espalhadas pela lavoura, o parceiro a ser seduzido é atraído por uma falsa promessa de reprodução, fica preso na armadilha, e não consegue deixar descendentes, diminuindo muito ou até interrompendo o ciclo reprodutivo da espécie.


Assim, o controle é feito sem contaminar o meio ambiente, sem exterminar insetos polinizadores ou importantes para a cadeia alimentar da fauna local e sem exigir o largo uso de pesticidas que, além de custar caro, vão se depositar no alimento e chegar até o consumidor final.


Os insetos são os maiores competidores dos humanos quando o assunto é alimento. Por ano, 13% do total da produção de grãos se perdem por ação direta deles. Levando-se em conta a produção agrícola dos últimos anos, isso significa de 13 a 15 milhões de toneladas perdidas. Quando se considera que insetos podem levar patógenos às áreas cultivadas, este número sobe bem mais. O mercado de agrotóxicos no Brasil é de cerca de US$ 2,3 bilhões, dos quais 26,9% são para pesticidas.


O investimento em pesquisas com feromônios se torna ainda mais premente por serem o Centro-Oeste e a região Norte as novas fronteiras agrícolas brasileiras. Com ecossistemas delicadíssimos, estas áreas podem sofrer muito com o uso indiscriminado de pesticidas. A região de transição entre cerrado e floresta tropical, o Pantanal Matogrossense e os lençóis que abastecem o Aqüífero Guarani, exigem mais ciência do que possantes máquinas agrícolas.



Feromônios no mundo

Os feromônios já se destacam no combate a pragas na agricultura mundial.

- Controle do besouro da banana (Cosmopolites sordidus) em plantações de grandes exportadores da América Central;

- Controle da lagarta do algodão (Pectinophora gossipiella) nas plantações do Oriente Médio, EUA e Austrália;

- Controle do besouro das palmeiras (Rhynchophorus ferruginoseus) e do besouro do dendê (Rhynchophorus palmarum) na América Latina, Ásia e Oriente Médio.

- Controle das lagartas Cydia pomonella e Grapholita molesta em plantios de maçã nos EUA, em toda a Europa e América do Sul (Brasil, Argentina e Chile);

- Controle da mariposa Chilo suppressalis em plantações de arroz na Espanha e Italia;

- Controle da lagarta Lobesia botrana em plantações de uva na Europa, principalmente Alemanha, França e Itália.



Pesquisas no Brasil

No Brasil, já se conseguiu sintetizar feromônios de pragas da cana-de-açúcar, como os besouros Migdolus fryanus e Spnenophorus levis; do bicudo-das-palmáceas, Rhyncophorus palmarum, praga das plantações de dendê e coco-da-Bahia; da lagarta enroladeira, Bonagota cranaodes, que infesta os pomares de maçã do Sul do país; da lagarta do cartucho, Spodoptera frugiperda, principal praga dos milharais; do bicho furão dos citros, Ecytolopha aurentiana, e também dos percevejos da soja, Euschistus heros e Piezodorus guildinii, entre outros.


Aqui, os feromônios começaram a ser estudados há 10 - 15 anos. As pesquisas são feitas em parceria e envolvem cientistas das Universidades Federais de Viçosa (MG), do Paraná e de Alagoas, da ESALQ/USP e de algumas unidades da EMBRAPA.




A ciência busca produtos limpos, mas que sejam obtidos não tão precariamente como na metodologia orgânica. Produtos que possam ser obtidos em maior escala, com maior qualidade, mais bonitos, usando altíssima tecnologia.