{"id":325,"date":"2020-07-22T10:50:07","date_gmt":"2020-07-22T13:50:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.quimica.ufpr.br\/paginas\/lpq\/?p=325"},"modified":"2020-08-04T08:48:06","modified_gmt":"2020-08-04T11:48:06","slug":"compostos-antirretrovirais-no-combate-a-aids-e-a-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.quimica.ufpr.br\/paginas\/lpq\/compostos-antirretrovirais-no-combate-a-aids-e-a-covid-19\/","title":{"rendered":"Compostos antirretrovirais no combate \u00e0 AIDS e \u00e0 COVID-19"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-326 alignleft\" src=\"http:\/\/www.quimica.ufpr.br\/paginas\/lpq\/wp-content\/uploads\/sites\/47\/2020\/07\/CoronaTay-300x205.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"205\" \/><\/p>\n<p>Em junho de 1981, nos Estados Unidos, cinco jovens foram diagnosticados com uma infec\u00e7\u00e3o pulmonar rara. O que chamou a aten\u00e7\u00e3o do mundo foi o fato de todos eles serem considerados saud\u00e1veis e, naquele momento, portadores de uma infec\u00e7\u00e3o comum em idosos. Foram os primeiros relatos das complica\u00e7\u00f5es decorrentes de uma doen\u00e7a que viria a ser conhecida como a S\u00edndrome da Imunodefici\u00eancia Adquirida (AIDS) causada pelo V\u00edrus da Imunodefici\u00eancia Humana (HIV). Nos anos seguintes, o que se viu foi uma corrida na busca de diagn\u00f3stico e tratamento de portadores do HIV no mundo todo.<\/p>\n<p>Os v\u00edrus s\u00e3o agentes infecciosos invasivos que t\u00eam como material gen\u00e9tico DNA (adenov\u00edrus) ou RNA (retrov\u00edrus). Um ou outro, nunca os dois. Os adenov\u00edrus causam doen\u00e7as como influenza e herpes, enquanto os retrov\u00edrus est\u00e3o envolvidos em doen\u00e7as como a AIDS e a COVID-19. Por serem estrutural e funcionalmente simples, os v\u00edrus precisam utilizar a maquinaria bioqu\u00edmica de uma c\u00e9lula hospedeira para se multiplicarem, num processo chamado de replica\u00e7\u00e3o. Esse processo pode ser resumido nas seguintes etapas:<\/p>\n<ol>\n<li>Uma vez no organismo humano, o v\u00edrus precisa invadir as c\u00e9lulas e, para isso, ocorre uma intera\u00e7\u00e3o entre duas prote\u00ednas: uma <strong>glicoprote\u00edna<\/strong> viral e uma prote\u00edna humana, esta \u00faltima chamada de <strong>CCR5<\/strong>, que se localiza nos receptores de c\u00e9lulas T.<\/li>\n<li>Depois disso, uma prote\u00edna do v\u00edrus d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 <strong>fus\u00e3o<\/strong> com a membrana da c\u00e9lula que ser\u00e1 invadida.<\/li>\n<li>Quando o v\u00edrus enfim entra na c\u00e9lula, ocorre a libera\u00e7\u00e3o do RNA viral no citoplasma. Esse RNA ser\u00e1 transcrito para gerar DNA pela a\u00e7\u00e3o de uma enzima viral chamada <strong>transcriptase reversa<\/strong>. <em>Essa etapa define a classe do v\u00edrus como retrov\u00edrus, por produzir DNA a partir de RNA, o que \u00e9 o contr\u00e1rio (retro) do comumente observado nas c\u00e9lulas.<\/em><\/li>\n<li>Na sequ\u00eancia, o DNA viral \u00e9 incorporado ao genoma do hospedeiro em um processo mediado por outra enzima viral, a <strong>integrase<\/strong>.<\/li>\n<li>A partir desta etapa, a maquinaria bioqu\u00edmica da c\u00e9lula infectada passar\u00e1 a sintetizar RNA viral. Al\u00e9m disso, as enzimas (transcriptase reversa, integrase, proteases) e poliprote\u00ednas ser\u00e3o quebradas em estruturas menores, por <strong>proteases virais<\/strong>, para formar a estrutura de um novo v\u00edrus.<\/li>\n<li>No final do processo, novos envelopes virais com material gen\u00e9tico, enzimas e demais prote\u00ednas ser\u00e3o expelidos da c\u00e9lula (ou seja, a c\u00e9lula invadida ter\u00e1 fabricado outras c\u00f3pias do v\u00edrus) para iniciar o processo de invas\u00e3o e replica\u00e7\u00e3o em outros hospedeiros.<\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>Figura<\/strong>: <em>Etapas do ciclo de invas\u00e3o de uma c\u00e9lula humana por um retrov\u00edrus, e os poss\u00edveis alvos biol\u00f3gicos para o tratamento da AIDS<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-326 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.quimica.ufpr.br\/paginas\/lpq\/wp-content\/uploads\/sites\/47\/2020\/07\/CoronaTay-300x205.jpg\" alt=\"\" width=\"507\" height=\"347\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Fonte: mestranda Tay Zugman<\/p>\n<p>Uma das alternativas para o combate aos retrov\u00edrus, como o HIV, \u00e9 o uso de compostos antirretrovirais, cuja a\u00e7\u00e3o \u00e9 voltada para a interrup\u00e7\u00e3o de uma, ou mais do que uma, das etapas citadas acima. As principais classes de retrovirais s\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>INIBIDORES DE FUS\u00c3O (IF<\/strong><strong>)<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o compostos que atuam na glicoprote\u00edna viral, mudando a sua estrutura e impedindo o seu reconhecimento pelos receptores das c\u00e9lulas humanas. Em consequ\u00eancia disso, a etapa de fus\u00e3o e a entrada do v\u00edrus na c\u00e9lula n\u00e3o ocorrem. <strong>Exemplo<\/strong>: <em>Enfuvirtida.<\/em><\/p>\n<p><strong>INIBIDORES DO RECEPTOR DE CCR5 (IC)<\/strong><\/p>\n<p>Atuam no receptor da c\u00e9lula humana. O composto se liga ao receptor CCR5, ocupando o \u201clugar\u201d em que o v\u00edrus se ligaria. Dessa forma, a intera\u00e7\u00e3o v\u00edrus-c\u00e9lula n\u00e3o ocorre, o que impede a infec\u00e7\u00e3o. <strong>Exemplo<\/strong>: <em>Maraviroque.<\/em><\/p>\n<p><strong>INIBIDORES DE TRANSCRIPTASE REVERSA<\/strong> <strong>(ITR)<\/strong><\/p>\n<p>Esses inibidores agem sobre as transcriptases reversas, enzimas que produzem DNA complementar a partir da transcri\u00e7\u00e3o do RNA. Em consequ\u00eancia desta a\u00e7\u00e3o, a replica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus n\u00e3o ocorre. Essa classe \u00e9 subdividida em <em>Inibidores de Transcriptase Reversa Nucleos\u00eddicos (ITRN) <\/em>e <em>Inibidores de Transcriptase Reversa Nucleos\u00eddicos (ITRNN)<\/em>. <strong>Exemplos<\/strong>: <em><u>ITRN<\/u> &#8211; <\/em>Zidovudina (AZT); Lamivudina (3TC); Abacavir; Tenofovir (TDF); Didanosina. <u>ITRNN<\/u>: Efavirenz (EFV); Nevirapina (NVP).<\/p>\n<p><strong>INIBIDORES DE INTEGRASES (II)<\/strong><\/p>\n<p>Agem sobre a enzima que faz a incorpora\u00e7\u00e3o do DNA viral ao humano, impedindo a replica\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica do v\u00edrus pela c\u00e9lula infectada. <strong>Exemplos<\/strong>: Raltegravir; Elvitegravir.<\/p>\n<p><strong>INIBIDORES DE PROTEASES (IP)<\/strong><\/p>\n<p>Inibem as proteases virais que agem sobre as poliprote\u00ednas, evitando a produ\u00e7\u00e3o de novos v\u00edrus. <strong>Exemplos<\/strong>: Ritonavir, Lopinavir, Atazanavir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais recentemente outro retrov\u00edrus tem assolado o mundo, causando a pandemia da COVID-19 (<em>coronavirus disease<\/em> 2019). Neste contexto, o novo coronav\u00edrus SARS-CoV-2 (<em>Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2<\/em>) tornou-se alvo de pesquisa em uma nova corrida para o desenvolvimento de testes diagn\u00f3sticos e, principalmente, o tratamento da doen\u00e7a. O v\u00edrus n\u00e3o escolhe seus hospedeiros, e a preven\u00e7\u00e3o \u00e9 uma responsabilidade de todos. As solu\u00e7\u00f5es, por outro lado, ser\u00e3o produzidas por cientistas das \u00e1reas da sa\u00fade, biologia e qu\u00edmica em um trabalho colaborativo cujo sucesso ser\u00e1 convertido no bem de todos. \u00c9 por isso que os investimentos em ci\u00eancia e tecnologia s\u00e3o imprescind\u00edveis.<\/p>\n<p>Saiba mais:<\/p>\n<p><a href=\"blank\">https:\/\/www.thebodypro.com\/article\/the-evolution-of-antiretroviral-therapy-past-prese<\/a><\/p>\n<p><a href=\"blank\">https:\/\/www.avert.org\/professionals\/history-hiv-aids\/overview<\/a><\/p>\n<p><a href=\"blank\">https:\/\/www.webmd.com\/hiv-aids\/hiv-treatment-history<\/a><\/p>\n<p><a href=\"blank\">http:\/\/www.sbac.org.br\/blog\/2020\/03\/30\/diagnostico-laboratorial-do-coronavirus-sars-cov-2-causador-da-covid-19\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-328 alignleft\" src=\"http:\/\/www.quimica.ufpr.br\/paginas\/lpq\/wp-content\/uploads\/sites\/47\/2020\/07\/Piovan.jpg\" alt=\"\" width=\"146\" height=\"173\" \/><\/p>\n<p>Texto pelo Prof. Dr. Leandro Piovan<\/p>\n<p>Departamento de Qu\u00edmica da UFPR<\/p>\n<p>http:\/\/lattes.cnpq.br\/7970123473558508<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o pela Mestranda Tay Zugman &#8211; Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Qu\u00edmica da UFPR<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em junho de 1981, nos Estados Unidos, cinco jovens foram diagnosticados com uma infec\u00e7\u00e3o pulmonar rara. 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